Autor
Andhressa Barboza
Olá, homem dodói ressentido!
Março chega e, com ele, a liturgia das homenagens. Flores, bombons, posts com filtros lilás, discursos de homens que descobrem, uma vez por ano, que mulheres existem. Em Mato Grosso, essa encenação acontece sob um dado que deveria envergonhar qualquer um: de 2021 a 2025, o estado se manteve entre os cinco com as maiores taxas de feminicídio do Brasil. Todos os anos. Sem exceção. Foram 53 mulheres assassinadas só em 2025. No país, quase seis por dia. Não há flor que dê conta disso.
Escrevo como quem vive, na pele e no currículo, as contradições de ser mulher na comunicação política mato-grossense. Sou jornalista, socióloga, advogada, mestra em Cultura Contemporânea. Trabalho há mais de 15 anos nesse estado e posso dizer, com a autoridade de quem já perdeu a conta das vezes em que precisou provar o óbvio: uma mulher qualificada não é vista como profissional. É vista como ameaça. Como alguém que "está se passando muito".
Existe uma violência que não aparece em boletim de ocorrência, mas que organiza o nosso cotidiano. A reunião em que sua fala é ignorada até que um homem repita exatamente o que você disse e então vire insight. O colega que, quando você impõe limites, comenta pelos corredores que você é "difícil de lidar".
Essa violência é a mais perversa porque opera no registro da normalidade. Não grita. Não deixa marca. Mas corrói. Faz mulheres competentes duvidarem de si. E faz a própria mulher internalizar que impor respeito é arrogância enquanto, para qualquer homem, a mesma atitude se chama liderança.
Mas há algo ainda mais estrutural, tão naturalizado que quase ninguém nomeia: a exigência de que sejamos infalíveis. A estrutura machista nos ensina, desde cedo, que o mínimo de reconhecimento profissional só virá se formos impecáveis. Um homem mediano é "promissor". Uma mulher excelente é "esforçada".
Ele erra e está aprendendo. Ela erra e confirma a suspeita de que não deveria estar ali. Precisamos ser duas, três vezes mais competentes para receber o que deveria ser básico: respeito, escuta, remuneração justa. E mesmo assim, muitas vezes não recebemos.
Conheço de perto a realidade de mulheres que chefiam equipes compostas por homens, que tomam as decisões estratégicas, que carregam a complexidade do trabalho intelectual, e ainda assim recebem salários iguais ou inferiores aos dos subordinados que executam tarefas operacionais sob sua orientação. Não é acidente. É arquitetura, é um desenho para que a mulher entregue mais, cobre menos e ainda agradeça pela oportunidade.
Hoje conquistei um lugar em que escolho com quem trabalho. Tenho assessorados que reconhecem minha capacidade estratégica e entendem que comunicação política é a espinha dorsal de um mandato, não decoração. Mas essa conquista veio com cicatrizes. Fui tratada como operacional quando era a estrategista. Tive trabalho intelectual atribuído a outros. Ao reagir a desrespeitos, ouvi que "precisava ser mais leve" como se leveza fosse sinônimo de submissão. Em Mato Grosso, onde o poder se organiza em redes masculinas de confiança e compadrio, uma mulher que pensa, argumenta e discorda com fundamento não é apenas incômoda. É, para muitos, intolerável.
Se reclamo, sou vitimista. E não é vitimismo. É recusa. Recuso-me a aceitar que, em 2026, uma mulher com três graduações e um mestrado ainda precise justificar por que merece estar na sala e por que merece receber à altura do que entrega. Que a violência contra a mulher seja pauta de março e esquecida em abril. Recuso-me a aceitar que o machismo que não mata, mas apaga seja tratado como "o jeito que as coisas funcionam".
Andhressa Barboza é jornalista, cientista social e advogada. Mestra em Estudos de Cultura Contemporânea pela UFMT. Atua em assessoria parlamentar, comunicação e marketing político em Mato Grosso.